Estudantes da PUC-SP recebem menção honrosa por trabalho sobre pessoas amarelas na clínica psicológica
Gabriela Tiba Katsuragawa e Ana Luísa Miyashiro Flosi reuniram pesquisas de conclusão de...
A cura do câncer de mama é uma realidade para até 95% das mulheres que descobrem a doença precocemente. É com esse horizonte de otimismo, mas também com um forte senso de urgência, que o país inicia as ações do Outubro Rosa deste ano. O principal desafio da campanha é transformar a estatística do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que projeta 78.610 novos casos anuais no Brasil, em uma corrente de conscientização, mostrando que o diagnóstico rápido continua sendo a arma mais poderosa para salvar milhares de vidas.
Um pouco de história
Em 1862, Edwin Smith (1822-1906), um antiquário e colecionador americano que viveu no Egito durante parte da sua vida, adquiriu em Luxor (às margens do Rio Nilo) um manuscrito que, posteriormente, receberia seu nome. Datado de aproximadamente 1600 a.C., o então Papiro Edwin Smith é considerado o mais antigo texto cirúrgico conhecido e reúne descrições de lesões, exames, diagnósticos e tratamentos.
Entre os casos descritos no manuscrito está aquele considerado um dos primeiros registros conhecidos de uma condição compatível com câncer de mama. O texto relatava tumores endurecidos e salientes na mama e indicava que, para aquele quadro, não havia tratamento disponível.
Os estudiosos consideram que o papiro reproduz conhecimentos provenientes de um texto ainda mais antigo. Sua origem exata e autoria permanecem incertas, embora o conteúdo original já tenha sido associado a Imhotep, médico e arquiteto do Egito Antigo.
Para compreender em mais detalhes o câncer de mama, entrevistamos o professor-doutor Luís Pires, docente da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) da PUC-SP e coordenador da Residência Médica em Oncologia Clínica na mesma instituição.
O câncer de mama é uma única doença ou há “subdivisões”?
Câncer de mama é uma denominação guarda-chuva para várias doenças diferentes, que se comportam de formas distintas e recebem tratamentos distintos. Elas são separadas principalmente pelas características que as células do tumor possuem na superfície.
Quais seriam essas características e como elas influenciam no tratamento?
Os tumores hormonais, como os luminais A e B, representam a maioria dos casos de câncer de mama. Seu crescimento é estimulado pelos hormônios femininos, principalmente estrogênio e progesterona, e, por isso, costumam responder bem a medicamentos que bloqueiam esse estímulo.
Por sua vez, os tumores HER2-positivos apresentam uma quantidade excessiva da proteína HER2, que estimula o crescimento das células tumorais. Atualmente, existem tratamentos específicos capazes de bloquear a ação dessa proteína e controlar melhor a doença.
Já os tumores triplo-negativos não apresentam receptores hormonais nem excesso da proteína HER2. Em geral, são mais agressivos e, durante muito tempo, estiveram entre os tipos de câncer de mama mais difíceis de tratar.
Além do tipo de tumor, outros fatores também ajudam a definir o tratamento, como o tamanho da lesão, o comprometimento dos gânglios da axila e a presença de alterações genéticas hereditárias, como BRCA1 e BRCA2. Por isso, duas mulheres com diagnóstico de câncer de mama podem receber tratamentos bastante diferentes.
Quais avanços recentes no tratamento do câncer de mama o senhor considera como principais?
Um dos principais avanços é a personalização do tratamento. Testes realizados no próprio tumor ajudam a estimar o risco de recidiva e a identificar pacientes que podem dispensar a quimioterapia sem prejuízo ao resultado. Estudos recentes mostram que muitas mulheres com tumores hormonais em estágio inicial podem não precisar desse tratamento, mesmo quando apresentam características que, no passado, seriam consideradas de maior risco.
Outro avanço importante são os medicamentos que associam um anticorpo a uma droga quimioterápica. Eles funcionam de maneira semelhante a um “míssil guiado”: o anticorpo reconhece a célula tumoral e leva o medicamento diretamente até ela, reduzindo a exposição dos tecidos saudáveis.
O trastuzumabe deruxtecana já ocupa papel importante no tratamento de tumores HER2-positivos, enquanto medicamentos como datopotamabe deruxtecana e sacituzumabe govitecana ampliaram as opções para casos de câncer de mama triplo-negativo, inclusive em associação com imunoterapia.
Também houve progresso no tratamento hormonal. Novos medicamentos em comprimido, como os inibidores de ciclina — proteínas envolvidas no controle da multiplicação das células — e os chamados SERDs, que atuam diretamente sobre o receptor de estrogênio, vêm ajudando a retardar a progressão da doença e a reduzir o risco de recidiva em determinados grupos de pacientes. Entre os exemplos mais recentes está o camizestranto.
Além dos medicamentos, houve uma mudança importante na própria forma de tratar. Em casos selecionados, cirurgias e esquemas de radioterapia podem ser menos agressivos, preservando mais a mama e reduzindo o impacto sobre o braço, sem comprometer a segurança do tratamento.
Em resumo, tratamos melhor e, ao mesmo tempo, tratamos menos quem não precisa de mais.
O Outubro Rosa concentra grande atenção no diagnóstico precoce. O senhor incluiria outros pontos de atenção?
Concordo com o foco no diagnóstico precoce, que continua sendo o fator que mais influencia a chance de cura. Mas incluiria outros pontos, como o acesso aos exames. Ou seja: de pouco adianta orientar a mulher a fazer o exame se ela espera meses para realizá-lo ou para começar o tratamento. O tempo entre a suspeita e o tratamento é decisivo, e é aí que as desigualdades mais pesam.
A qualidade do rastreamento é fundamental. As recomendações sobre a idade de início da mamografia variam entre as entidades médicas e o Ministério da Saúde. O caminho mais seguro é cada mulher conversar com seu médico, considerando seu histórico familiar.
Outro ponto é o risco hereditário. Mulheres com muitos casos de câncer de mama ou ovário na família podem precisar de aconselhamento genético e de acompanhamento diferenciado.
A prevenção também é essencial. Manter peso saudável, praticar atividade física, moderar o álcool e não fumar são atitudes que reduzem o risco.
E para finalizar, mas não menos importante, é lançar luzes nas mulheres que já foram tratadas. A campanha pouco fala da vida depois da doença.
Depois do término do tratamento, quais desafios físicos, emocionais e sociais podem permanecer, e como deve ser o cuidado com a paciente nessa nova etapa?
Terminar o tratamento não significa voltar imediatamente à vida de antes. Alguns desafios podem persistir. Entre os físicos, destaco o cansaço, dores, inchaço no braço, sintomas da menopausa induzida pelo tratamento, dores articulares, alterações de memória e concentração. No caso dos emocionais, há o medo de a doença voltar, ansiedade, tristeza e dificuldade de se reconhecer no próprio corpo. Finalmente, nos sociais, temos o retorno ao trabalho, as dificuldades financeiras, mudanças nos relacionamentos e na vida sexual, além de questões ligadas à fertilidade nas mulheres mais jovens.
O cuidado deve ser contínuo e multidisciplinar. Isso inclui consultas e exames periódicos, apoio psicológico, fisioterapia, orientação nutricional e estímulo à atividade física. Muitas pacientes seguem por anos com o remédio hormonal, e tomá-lo corretamente é parte do tratamento. Há evidências de que hábitos como exercício, ioga e perda de peso ajudam a aliviar efeitos colaterais e a melhorar o bem-estar de sobreviventes.
Sobreviver ao câncer é uma conquista, e a paciente merece ser acompanhada também no que vem depois.