Perguntar talvez seja a resposta

Em cartaz no Tucarena, Pergunte Alguma Coisa com Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky transforma o encontro entre uma mulher e uma inteligência artificial em reflexão sobre afeto, solidão, identidade e os limites entre o humano e o algoritmo

por Cláudio Oliveira | 04/09/2026

Uma mulher precisa de uma “desculpa” para faltar no trabalho e recorre à inteligência artificial. O que poderia terminar em uma mentira banal para apresentar ao RH transforma-se, em Pergunte Alguma Coisa, em uma espécie de DR entre uma pessoa e uma máquina. A partir desse conflito cotidiano, o texto de Gustavo Pinheiro abre caminho para questões maiores como: quanto de nós entregamos às tecnologias que utilizamos? E quanto elas, alimentadas por nossas perguntas, desejos, medos e contradições, acabam se tornando semelhantes a nós?

Em cartaz no Tucarena, o espetáculo dirigido por Guilherme Gobbi faz dessas perguntas o seu centro gravitacional. Não há sermão contra a tecnologia nem deslumbramento diante dela. Há dúvida. A montagem coloca frente a frente inteligência natural e artificial para, aos poucos, borrar a fronteira entre as duas.

Duas atrizes, um mesmo neurônio

Há algo anterior à dramaturgia que trabalha a favor de Pergunte Alguma Coisa. A amizade entre as protagonistas. Daphne e Gabriela se conheceram há quase dez anos, em outro projeto, e construíram desde então uma parceria que ultrapassou os limites profissionais.
No palco, essa intimidade se traduz em precisão. Olhares, pausas, respostas e movimentos revelam duas atrizes que sabem escutar uma à outra. “Eu brinco que a gente divide o neurônio”, diz Gabriela ao JPUC. Segundo ela, a peça exige “muito jogo, muita cumplicidade” e dificilmente aconteceria da mesma maneira sem a relação construída pelas duas ao longo dos anos.
Daphne conta que essa sintonia também esteve presente no processo de criação e permanece diante de uma plateia diferente a cada sessão. “A gente não sai de cena. Então consegue, nesse olhar, estar sempre conversando e saber um pouco da outra. O teatro é o jogo. Não tem como fazer sozinho”, afirma.

Uma DR com o algoritmo

Gustavo Pinheiro constrói essa discussão sem transformar o palco em sala de aula. Há humor, ironia e situações reconhecíveis. A dramaturgia parte do ordinário para chegar ao existencial.

Aos poucos, o espetáculo deixa de ser apenas uma peça sobre inteligência artificial. Fala de solidão, identidade, trabalho, afeto e necessidade de escuta. Em determinados momentos, a discussão entre mulher e máquina poderia ser também uma conversa de alguém consigo mesmo.

É nesse deslocamento que o espetáculo evita demonizar a tecnologia. “A gente não tem nenhuma pretensão de dizer o que é certo e o que é errado”, afirma Gabriela. Para a atriz, uma das qualidades do texto está justamente na ausência de maniqueísmo, o espectador pode se identificar com um lado e, pouco depois, perceber-se concordando com o outro.

Daphne também aponta para a necessidade de pensar os limites dessa relação. “A gente quer que as pessoas reflitam e tenham consciência do papel da inteligência artificial e do limite”, diz. E resume uma das provocações que atravessam a peça: “Quem tem que criar, quem é o criador e o pensador, somos nós”.

Para a comunidade universitária, a questão ganha uma camada adicional. Em um momento em que se discutem os usos éticos, acadêmicos e profissionais da inteligência artificial, Pergunte Alguma Coisa desloca o debate da tela para o palco. Não oferece respostas prontas. Faz algo que o teatro sabe fazer melhor, que é lançar luz sobre conflitos humanos.

O digital construído no analógico

A cenografia predominantemente branca, formada por poucos elementos e cubos que mudam de posição e função, lembra uma interface digital. A escolha produz um paradoxo interessante, fala-se de inteligência artificial, algoritmos e virtualidade por meio de uma das formas artísticas mais concretas e analógicas que existem — duas atrizes, seus corpos, suas vozes e uma plateia reunida no mesmo espaço e no mesmo instante.

O palco 360º do Tucarena potencializa essa contradição. A proximidade entre espectadores e intérpretes transforma o espaço numa arena de ideias, um embate entre duas formas de inteligência. A tecnologia está no assunto, mas a experiência permanece radicalmente humana.

Uma peça sobre máquinas se realiza por meio de algo que nenhuma delas consegue reproduzir por completo. Duas pessoas respirando no mesmo espaço, diante de outras pessoas, construindo juntas uma experiência que nunca se repete exatamente da mesma maneira.

Sobre o TUCA

Gabriela Medvedovsky estreia profissionalmente no TUCA, espaço que já frequentava como espectadora. “Sempre tive vontade de estar neste palco. É a realização de um sonho, ainda mais em um teatro que faz parte da história cultural de São Paulo”, afirma. A atriz também destaca a estrutura e o acolhimento da equipe.

Daphne Bozaski já havia se apresentado no Tucão, mas vive agora sua primeira experiência no Tucarena e em um palco de arena. “É muito especial fazer parte da trajetória do TUCA. No Tucarena, estamos cercadas pelo público e recebemos uma resposta muito rápida, o que torna a experiência ainda mais emocionante”, diz.
 

SERVIÇO:

“PERGUNTE ALGUMA COISA”

Teatro Tucarena – Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes / SP Tel: (11) 3670-8455
Temporada: de 06 de agosto a 11 de outubro (quinta a domingo)
HORÁRIOS: 5ª, 6ª e sábado às 20h30, dom às 17h
INGRESSOS: R$140 e R$70 (meia)

VENDAS: www.sympla.com.br ou na bilheteria de 3ª a sab de 14h às 20h, dom de 14h
às 18h
CAPACIDADE: 288 espectadores
ACESSIBILIDADE: sim
DURAÇÃO: 60 min
GÊNERO: comédia
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
Redes Sociais: @perguntealgumacoisa

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