Estudo de mestrado na FCMS avaliou formulação de resveratrol desenvolvida na PUC-RS e encontrou resultados promissores no tratamento do lipedema
A dissertação de mestrado desenvolvida pela cirurgiã vascular Maysa Amanda Ferrari Rissi, sob orientação da professora-doutora Marli Gerenutti, no Programa de Pós-Graduação em Biomateriais e Medicina Regenerativa da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) da PUC-SP, investigou uma nova possibilidade de tratamento clínico para o lipedema, com base em uma linha de pesquisa originada na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Intitulado Avaliação da biodisponibilidade e do impacto clínico do uso de resveratrol oral de liberação modificada em portadoras de lipedema, o trabalho analisou os efeitos de uma formulação de resveratrol – substância de origem natural encontrada em altas concentrações na casca da uva – administrada por via oral em mulheres diagnosticadas com a patologia.
O lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo anormal de tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores, podendo causar dor, sensação de peso, edema e hematomas. Atualmente, não há medicamento específico com eficácia cientificamente estabelecida para reduzir seus sintomas ou o processo inflamatório associado ao quadro.
Da PUC-RS à investigação clínica na PUC-SP
O material utilizado na pesquisa da mestranda Maysa era uma formulação de resveratrol associada a óleo vegetal, desenvolvida na PUC-RS e fornecida pelo professor-doutor André Arigony Souto, do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular da instituição gaúcha de ensino.
Estudos anteriores em modelos animais haviam apontado maior potencial anti-inflamatório da formulação de liberação modificada em comparação ao resveratrol convencional. A pesquisa conduzida na PUC-SP deu um novo passo ao investigar essa tecnologia em seres humanos e, especificamente, em mulheres com lipedema.
O lipedema foi negligenciado e subdiagnosticado por muitas décadas. Somente em 2022, na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), foi definitivamente reconhecido como patologia. “Desde então, há um número crescente de mulheres buscando o diagnóstico correto e auxílio no tratamento”, conta a pesquisadora.
Maysa explica que, por se tratar de uma condição crônica e pouco estudada, há um número limitado de artigos científicos de referência, principalmente em termos de tratamento oral a longo prazo que seja capaz de reduzir a inflamação do tecido adiposo. “Os sintomas do lipedema têm impacto direto na piora da qualidade de vida das portadoras, e isso me instigou a pesquisar mais”, diz.
“Quando fui aprovada para iniciar o mestrado, a professora Marli apresentou a proposta de parceria com o professor Arigony, cujas pesquisas com o resveratrol de liberação modificada já apresentavam resultados promissores em modelos animais. Foi então que ficamos interessadas em desenvolver um ensaio clínico para testar essa formulação em humanos, focando no tecido adiposo do lipedema. Naquela ocasião, imaginamos que poderíamos ter em
mãos uma peça importante do complexo quebra-cabeça que é o tratamento do lipedema”, revela.
Achados promissores
Entre os principais achados no estudo da mestranda, as análises das biópsias do tecido adiposo mostraram redução estatisticamente significativa da área e do perímetro das células gordurosas após 120 dias de tratamento com o referido resveratrol. Houve, também, redução significativa da quantidade de macrófagos (células relacionadas ao processo inflamatório) no tecido adiposo analisado. Do ponto de vista clínico, a maioria das participantes apresentou sinais sugestivos de melhora dos sintomas e da percepção da dor.
O diagnóstico do lipedema é clínico, baseado nas queixas da paciente e em seu exame físico. O padrão-ouro para avaliação do tecido adiposo é a análise histopatológica. “Em portadoras de lipedema, encontramos aumento de volume, da quantidade de células adiposas e inflamatórias e fibrose local”, observa.
“A realização desta análise no estudo se fez essencial como medida objetiva de resposta ao tratamento, pois comparamos o tecido adiposo no início – sem qualquer medicação – e ao final, transcorridos 120 dias de uso do resveratrol de liberação modificada. De posse dos resultados, já de imediato, notamos que houve uma mudança no padrão da arquitetura do tecido adiposo”, destaca Maysa.
A pesquisado relata que, ao realizar as medidas de perímetro e área, houve a confirmação de uma “expressiva redução dessas dimensões, o que sugeriu que a substância havia controlado a inflamação causada pela doença”. Segundo ela, isso se tornou mais claro e foi confirmado por meio da avaliação imuno-histoquímica. “Realizamos a contagem de macrófagos e identificamos redução expressiva do infiltrado de células inflamatórias ao final do tratamento. Todo esse cenário era compatível com a melhora clínica das voluntárias, relatada no decorrer do estudo.”
Resultados promissores, mas ainda iniciais
Por se tratar de um estudo-piloto, os resultados são promissores, porém iniciais. Ainda existem limitações e há necessidade de continuidade da pesquisa utilizando-se maior número de participantes e acompanhamento mais prolongado.
Ainda assim, os resultados obtidos são surpreendentes e inéditos. Eles indicam potencial controle dos sintomas e da progressão da doença e abrem caminho para novas investigações sobre o uso dessa formulação no tratamento do lipedema.
Segundo a professora-doutora Marli Gerenutti, os resultados alcançados pelo projeto até o presente momento são motivo de grande satisfação. Ela destaca que o desenvolvimento de uma pesquisa clínica envolvendo seres humanos exige dos pesquisadores dedicação, rigor científico, responsabilidade e perseverança, além do comprometimento e da colaboração dos voluntários, cuja participação é fundamental para a realização e o sucesso do estudo.
Para Marli, desenvolver pesquisas aplicadas e que envolvam desafios importantes – como o tratamento do lipedema –, capazes de gerar impacto social, representa uma das dimensões mais relevantes da atividade científica. Mais do que produzir e publicar conhecimento, ela ressalta que o propósito é fazer com que os resultados das pesquisas ultrapassem os limites da universidade e cheguem à sociedade, transformando o conhecimento produzido nos laboratórios em benefícios concretos para pessoas que necessitam de novas alternativas de tratamento.
Nesse sentido, a professora considera essencial a integração entre universidade, pesquisa clínica e setor produtivo para transformar conhecimento científico e inovação tecnológica em soluções que possam contribuir para o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas, para a melhoria da assistência à saúde e, consequentemente, da qualidade de vida das pessoas.



